Se a Parte 1 mostrou como o dinheiro saiu da Santa Casa, esta mostra para onde ele foi. E o retrato que a quebra de sigilo bancário desenhou é o de um caixa dois a céu aberto.
A conta da Redvalue Tecnologia, segundo o Ministério Público, nunca foi conta de empresa que digitaliza prontuário. Era conta de passagem: “os valores ingressavam e, logo em seguida, eram retirados em espécie ou transferidos para empresas e pessoas físicas vinculadas ao núcleo comandado por Maurício Aparecido Benites”. Nada de compra de scanner, nada de folha de pagamento compatível, nada de estrutura. Dinheiro entrando e saindo pela boca do caixa.
O número da besta invertido: 49.999
Existe uma regra que todo operador de dinheiro sujo conhece de cor: saque ou depósito em espécie igual ou superior a R$ 50 mil obriga o banco a comunicar ao Coaf, o órgão federal que caça lavagem de dinheiro. É o artigo 49 da Circular 3.978/2020 do Banco Central.
Agora olhe as tabelas encontradas pelo MP. São 120 operações. Dessas, 55 estão entre R$ 49.000 e R$ 49.999,99. E 24 são de exatamente R$ 49.999,00.
Um real. A distância entre o esquema e o radar do governo federal era de um real, repetida duas dezenas de vezes.
“A repetição do mesmo limite demonstra fracionamento deliberado das movimentações, destinado a evitar que a circulação integral dos recursos fosse identificada pelos mecanismos de monitoramento e controle do sistema financeiro”, escreve a promotoria. A juíza foi na mesma linha: “a repetição de operações em montante imediatamente inferior a esse limite constitui elemento relevante”.
Funcionário com salário de R$ 2.400 tirou R$ 676 mil; servidor da Prefeitura, R$ 762 mil; servidora da Agems, R$ 575 mil. Foram 120 operações, 55 delas coladas no teto que obriga o banco a avisar o governo. E, no meio disso, casa comprada “em espécie”
O hospital pagava na segunda, o caixa esvaziava na terça
O MP escolheu dois dias para ilustrar o mecanismo: 15 de maio e 25 de junho de 2025, quando a Santa Casa creditou dinheiro na conta da Redvalue. “Assim que os recursos foram creditados, o numerário foi fracionado em sucessivos saques em espécie.”
As tabelas confirmam a correria. Nos dias 20 e 21 de maio, a servidora da Agems tirou R$ 49.990 em cada um. Em 26, 27 e 30 de junho e duas vezes em 2 de julho, Geraldo Afonso de Andrade Júnior sacou R$ 49.999 de cada vez. Em 27 e 30 de maio e 2 e 9 de junho, Alípio Carlos de Brito repetiu o valor mágico quatro vezes.
Os oito do caixa
Alípio Carlos de Brito é o maior de todos: R$ 2.197.061 em 48 operações entre janeiro de 2024 e janeiro de 2026, parte da conta da Redvalue, parte da conta pessoal de Benites.
O filho dele, Claudinei Simioli de Brito, aparece como destinatário de transferências “em valores milionários”, diz o MP, sem detalhar.
Geraldo Afonso de Andrade Júnior: R$ 955.583 em 23 saques, 16 deles de R$ 49.999 cravados. O que liga Geraldo ao grupo, segundo a promotoria, é o currículo dele, encontrado dentro dos arquivos digitais de Benites.
Márcio de Melo Hamana, servidor da Prefeitura de Campo Grande lotado na Semadi (Secretaria Municipal de Administração e Inovação): R$ 761.999 em 17 saques entre outubro de 2024 e março de 2025. Só na primeira quinzena de outubro de 2024 foram cinco idas ao banco.
Valdenir Rogério Cardoso, empregado formal da EXBE, salário registrado de R$ 2.400 por mês: R$ 675.999,98 em 16 saques. Vinte e três anos de salário retirados em dez meses. “Seu vínculo empregatício foi utilizado para viabilizar a retirada física de valores pertencentes ao núcleo empresarial”, escreve o MP.
Tatiana Rodrigues de Souza, servidora da Agems, salário de R$ 11.504,66: R$ 575.380 em oito saques, os quatro primeiros de R$ 100 mil redondos.
Aleida Resende Alves Gonçalves Moreno, servidora da Planurb: R$ 211.989 em trinta dias. Dois Pix da Redvalue em 9 e 10 de abril de 2025 (R$ 60 mil e R$ 52 mil) e dois saques em 8 e 9 de maio (R$ 49.990 e R$ 49.999).
Márcio Juvanio da Silva: R$ 129.999 em três saques. Jean Carlos da Silva Macedo, diretor de tecnologia da Redvalue e, ao mesmo tempo, empregado da EXBE: R$ 49 mil.
Somando tudo: R$ 5,56 milhões. Nenhum dos oito foi preso, todos tiveram busca e apreensão em casa.
As tabelas começam em janeiro de 2024, dez meses antes do contrato com a Santa Casa, e incluem retiradas da conta pessoal do empresário. O MP não diz que todo esse dinheiro é do hospital. Diz que Redvalue, EXBE e Infortech eram “um único grupo econômico”, com dinheiro circulando entre elas “em camadas de transferências e saques, como forma de dificultar o rastreio”.
O veredito da promotoria sobre o papel dessa gente é seco: “Não foram identificadas contraprestações, contratos, notas fiscais, vínculos comerciais ou justificativas econômicas capazes de explicar por que empregados, servidores públicos e pessoas físicas ligadas ao grupo retiraram ou receberam valores tão elevados. A função dessas pessoas no fluxo financeiro foi converter, pulverizar e afastar o dinheiro.”
E o dinheiro virou tijolo
Enquanto o caixa girava, cartórios de Campo Grande registravam compras.
Em 24 de janeiro de 2025, Alir Terra Lima comprou uma casa na Rua João Pessoa, bairro Monte Carlo, por R$ 400 mil, e a escritura registra a forma de pagamento: “pago no ato, em espécie da moeda corrente nacional”. Dinheiro vivo, na mesa do tabelião.
Compare com a compra anterior dela, de julho de 2021, antes da presidência: um imóvel de R$ 450 mil na Rua Luciana, Jardim Autonomista, pago com três transferências bancárias detalhadas na escritura, R$ 22.500, R$ 31.500 e R$ 396.000. Tudo rastreável. Na de 2025, nenhuma linha a seguir.
Do lado do sócio de escritório dela, o advogado Paulo da Cruz Duarte, o roteiro se repete. Em 20 de junho de 2023, ele e a esposa compraram o apartamento no Edifício Pernambuco, por R$ 350 mil, “integralmente pago em moeda corrente nacional”. Quatro meses antes, ele tinha aberto a Duarte Soluções Creditícias. Seis semanas depois, a empresa assinaria o primeiro contrato com a Santa Casa Saúde.
Em 20 de março de 2025 veio o segundo: apartamento no Edifício Tom Jobim, perto do shopping, prata fina de burguês, R$ 670 mil, em doze parcelas de R$ 50 mil a partir de 30 de abril. É exatamente o mês em que as empresas dele começaram a receber R$ 557 mil por mês da operadora de saúde da Santa Casa.
A quebra de sigilo mostrou ainda que Alir recebeu mais de R$ 200 mil transferidos diretamente por Paulo Duarte e que a conta dela tinha “numerosos depósitos sem identificação de origem”, que, segundo o MP, “não foram declarados em seu imposto de renda”.
O MP ressalva que a análise dos cartórios ainda não terminou e que o cruzamento entre os pagamentos e os imóveis “é indispensável para identificar a origem dos recursos”. Ou seja: ninguém afirmou, ainda, que a casa saiu do caixa do hospital. A juíza não bloqueou os bens, mandou que as buscas servissem ao “rastreamento patrimonial”.
Leia na Parte 3: a outra frente da operação, R$ 9,6 milhões que saíram do plano de saúde da Santa Casa para nove empresas de um único advogado.
O TopMídia News procurou a Prefeitura de Campo Grande (sobre Márcio de Melo Hamana e Aleida Moreno), a Agems (sobre Tatiana Rodrigues de Souza), os oito citados nas tabelas e as defesas de Alir Terra Lima, Paulo da Cruz Duarte e Maurício Benites.








