O deputado estadual Pedro Kemp (PT) saiu em defesa da atuação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) e classificou como "crime hediondo" o esquema de corrupção investigado na Operação Gutenberg, que, segundo o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), fraudava a Central de Regulação de Vagas da saúde pública para favorecer municípios que contratassem, sem licitação, empresas ligadas ao grupo investigado.
Durante discurso na tribuna da Assembleia Legislativa, nesta quarta-feira (8), o parlamentar afirmou que desviar recursos da Saúde e usar a necessidade de pacientes graves como moeda de troca representa um dos ataques mais graves ao Sistema Único de Saúde (SUS).
"Eu considero essas situações crimes hediondos. E como é interessante que os corruptos gostam de roubar dinheiro da Saúde! A gente vai por Campo Grande e pelo interior do Estado e há muita reclamação. Quando a gente se depara com uma operação dessa, o que bate é um sentimento de revolta, de indignação", declarou.
Kemp afirmou que a manipulação da fila de regulação fere o princípio da equidade do SUS e prejudica principalmente a população mais vulnerável. O deputado também lembrou que a Editora Alvorada, antiga Gráfica Alvorada, apontada como uma das empresas envolvidas no esquema, já havia sido alvo de investigações em outros casos de corrupção envolvendo contratos públicos para fornecimento de materiais didáticos.
Ao cobrar punição rigorosa aos envolvidos, o parlamentar defendeu que a organização criminosa seja completamente desarticulada.
"Não adianta serem presos hoje e soltos amanhã", afirmou, acrescentando que crimes contra a saúde pública exigem resposta firme das autoridades.
Como funcionava o esquema
As investigações da Operação Gutenberg apontam que o esquema tinha como principal instrumento de pressão a Central de Regulação Hospitalar da Secretaria de Estado de Saúde (SES).
Conforme apurado, o coordenador da regulação hospitalar de Mato Grosso do Sul, Ed Carlo Burgatt, teria sido cooptado para beneficiar municípios que aceitassem participar do esquema. Segundo a investigação, cidades que realizassem compras diretas, sem licitação, de livros paradidáticos fornecidos pela Editora Alvorada recebiam prioridade na liberação de leitos hospitalares, exames, cirurgias e outros procedimentos regulados pelo Estado.
Já os municípios que recusavam as contratações enfrentariam dificuldades para conseguir autorizações por meio da Central de Regulação, criando uma espécie de pressão para aderir às compras.
A empresa investigada é administrada por Rossana Jafar e pelos filhos Olívia Jafar e Felipe Paroschi Jafar. Antiga Gráfica Alvorada, ela já havia sido citada em investigações relacionadas à Operação Lama Asfáltica.
Prisões e organização criminosa
Deflagrada na terça-feira (7), a Operação Gutenberg cumpriu 16 mandados de prisão e 43 mandados de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados, São Gabriel do Oeste, Caarapó, Corguinho, Porto Murtinho, além de São Paulo e Abadiânia (GO).
Segundo o MPMS, a organização criminosa é investigada pelos crimes de corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e outros delitos relacionados. O prejuízo estimado aos cofres públicos chega a R$ 27 milhões.
Entre os presos estão o coordenador da regulação hospitalar, Ed Carlo Burgatt, e sua filha, Jéssyca Burgatt, apontados como integrantes de um dos principais núcleos da organização.
Também foram presos os empresários Paulo Rogério de Melo e Douglas Henrique de Melo, pai e filho, cuja participação específica ainda está sob sigilo.
Outro investigado é o advogado Gabriel Taquino de Paula, consultor jurídico do Consórcio Público de Desenvolvimento do Vale do Ivinhema (Codevale), entidade que reúne 14 municípios sul-mato-grossenses. Conforme a investigação, ele atuava na análise jurídica de processos de contratação e licitações realizadas pelo consórcio.
Após a operação, o Governo do Estado anunciou medidas para reforçar os mecanismos de controle da Central de Regulação, enquanto as investigações prosseguem para identificar todos os envolvidos e a extensão do esquema.








